Quem melhor me representa?

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Essa é a pergunta que o coletivo Ma Voix (Minha Voz) está fazendo aos cidadãos da cidade francesa de Strasbourg durante a campanha para eleições legislativas parciais. Pelas ruas da cidade podem ser vistos cartazes com a pergunta “Quem melhor me representa?” com um espelho logo abaixo, refletindo o rosto de quem para para observar o cartaz.

É uma forma interessante de colocar o debate político em tempos de crise de representatividade e demandas demaior participação. Estaríamos mesmo no momento de tornar a política algo comum e próximo ao cidadão – e não mais um universo de difícil acesso, um círculo restrito – a ponto de qualquer pessoa poder se considerar apta a ser candidata?

A ideia do coletivo, que faz questão de se diferenciar dos partidos tradicionais, é exatamente essa. O método usado para escolher seu candidato nas eleições foi nada mais nada menos que um sorteio. As interpretações sobre essa escolha podem ser diversas, mas uma coisa parece clara: a relação dos cidadãos com a política está mudando em vários lugares do mundo. Quem começa a buscar alternativas ao invés de apenas se apegar a estruturas que em muitos sentidos estão ultrapassadas, pode ter uma vantagem considerável.

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Global Debout e tentativa de internacionalizar o movimento

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No próximo domingo (15), acontece o movimento Global Debout. Nascido da Nuit Debout, que atualmente acontece na França, o Global Debout é uma tentativa de mobilizar movimentos de outros países em torno do mesmo mote e da ocupação de praças públicas. A data não é aleatória, trata-se da data de aniversário do movimento espanhol Indignados/15M. Segundo o comunicado de imprensa do movimento 130 cidades de 28 países participarão da mobilização.

Para preparar esta mobilização, o final de semana passado foi dedicado a uma troca de experiências com movimentos de outros países. Na plenária do sábado de manhã, quando os convidados de fora se apresentaram, eram nove países presentes, entre eles Espanha, Itália, Bélgica, Grécia e Estados Unidos.. Além disso, representantes de outras cidades francesas também vieram mostrar que o movimento de fato não está restrito a Paris.

Esta articulação internacional – que na verdade é majoritariamente – contribui para reforçar as pautas mais amplas do movimento como a luta contra as políticas de austeridade e a renovação do sistema político existente. Isso porque a lei trabalhista (Loi El Khomri), principalmente mote de criação da Nuit Debout, é uma pauta nacional, ainda que diversas outras nações europeias tenham aprovado ou estejam tentando aprovar leis semelhantes.

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Internacionalizar a luta em torno de pautas semelhantes não parece tarefa simples. Ainda que a maior parte dos parceiros seja europeu, as diferenças e divergências internas do continente são enormes. O clima de insatisfação ajuda criar uma união e solidariedade, mas as junção de propostas alternativas para resolver os problemas ainda não parece tão clara.

De toda forma, a Global Debout nos mostra duas coisas interessantes. Primeiro que pensar em uma mobilização internacional coordenada parece ser mais do que nunca possível – e certamente as tecnologias da informação e comunicação têm um importante papel nisso. Segundo que já existem suficientes experiências internacionais desse tipo de movimento para que haja transferência de estratégias e tecnologias entre eles. É verdade que isso não é exatamente novidade e a conexão internacional esteve presente em muitos dos movimentos recentes, mas a bagagem acumulada e a necessidade de compartilhamento só parece aumentar. O caso da Espanha, em especial, gera muita curiosidade e interesse por aqui. Certamente a possibilidade de uma certa institucionalização e entrada na disputa políitico-institucional fascina muitos e muitas.

Fiquemos atentos ao que está por vir.

Nuit Debout: mais um movimento espontâneo e sem organização formal?

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Agora é a vez da França. Depois de tantos outros países que, desde 2011, vivenciaram ondas de protestos e manifestações, agora são os franceses – na verdade o mais correto seria, os habitantes da França, dada a grande quantidade de imigrantes – que desde o último 31 de março estão ocupando a emblemática Place de République, em Paris, além de outras praças, parques e diversos espaços públicos em outras cidades do país. A novidade de todos estes movimentos, apesar da enorme diversidade que há entre eles, é a demonstração de que partidos, sindicatos e forças sociais tradicionais já não são os únicos a conseguir mobilizar as sociedades. Claro, em termos de comunicação, há o protagonismo das mídias digitais como forma de disseminar, mobilizar, organizar, coordenar, registrar e arquivar (Cammaerts, 2014) o que ali se passa.

O movimento chamado Nuit Debout (literalmente Noite em Pé, mas em uma tradução mais apropriada talvez Vigília ou Vigília Noturna) tem como mote principal a luta contra uma lei conhecida como Loi El Khomri. Trata-se de uma reforma das leis trabalhistas que diminui drasticamente os benefícios sociais dos trabalhadores e precariza as relações de trabalho. Março foi um mês de grandes mobilizações dos trabalhadores contra esta lei. Os sindicatos e associações de classe organizaram quatro manifestações e na última delas (realizada no dia 31 de março) ganhou força o mote #OnRentrePasChezNous, que significa algo como “Não vamos voltar para casa”. Com esse mote a Place de la République foi ocupada e o movimento começou.

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É preciso esclarecer que, como muitos dos movimentos deste tipo, a aparência de espontaneidade completa que pode existir quando se olha à distância logo se desfaz quando o olhar é um pouco mais apurado. Quando a praça foi ocupada em 31 de março os organizadores já tinham autorização da polícia para ocupar aquele espaço até o domingo, quatro dias depois. É evidente que hoje o movimento é muito maior do que o grupo que o idealizou (citado por muitos como ligados à publicação de esquerda Fakir, ao cineasta autor do filme Merci, Patron François Ruffin e ao economista anti-capitalista Frédéric Lordon ) e que o movimento ganhou notoridade e legitimidade porque atraiu muitas pessoas que nada tinham a ver com esse núcleo inicial.

Considero importante esclarecer isso pois creio que muitos parecem querer fazer crer que este tipo de movimento surge do nada, de cidadãos completamente alheios a movimentos já existentes que do dia para a noite decidem se juntar por motivos e formas que ninguém explica muito bem. Não é o caso em Paris e me parece que também não em outros países, como por exemplo o que aconteceu no Brasil em 2013. Além disso, considero ainda que deve ser combatida essa legitimidade exacerbada que, muitas vezes, se dá aos tais movimentos “espontâneos”, como se eles fossem melhores ou mais genuínos que aqueles organizados por movimentos sociais tradicionais ou partidos políticos. Não ser organizado por organizações tradicionais não me parece ser a priori uma vantagem democrática e os casos concretos nos mostram que essas mobilizações podem gerar resultados extremamente diversos e em um espectro ideológico bastante amplo.

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Voltando à Nuit Debout, o movimento em Paris, ocupa a praça há mais de um mês e nesse período criou uma interessante forma de organização e tomada de decisão. A instância sobrerana do movimento é a assembleia geral. Para participar dela, basta estar na praça e demandar seus cartões de votação. Não há nenhuma exigência para votar. No último domingo (8), estive na assembleia de propostas. Trata-se da ocasião em todo e qualquer um pode propor uma ação ao movimento. As propostas são inscritas e um sorteio é realizado para determinar sua ordem de apresentação. Cada proponente dispõe de quatro minutos para apresentar sua proposta, que é seguida de três opiniões a favor e três contra a proposta. Depois disso, a assembleia vota em duas etapas. O primeiro voto é se a proposta diz respeito ao todo do movimento e o segundo se a proposta pode ser levada à votação na semana seguinte. Sim, esta primeira etapa é diz respeito apenas à “admissibilidade do processo”, por assim dizer.

Admitida a proposta, ela é publicada na praça e também no Facebook do movimento para que seja amplamente debatida. A proposta será ainda tema do Atelier de Consulta, onde as comissões relacionadas a ela darão suas opiniões sobre o tema. Por último, a proposta precisa ser aprovada na Assembleia de Decisão, que acontecerá no próximo sábado, onde, aí sim, haverá uma decisão sobre a adoção ou não da proposta. Todo esse processo visa colocar as proposições em debate amplo e construir uma decisão coletiva sobre o futuro do movimento.

Além da Assembleia Geral, o movimento trabalha em comissões menores. Existem as comissões estruturais, que são responsáveis pelo funcionamento básico do movimento, como logística, restaurante, comunicação, enfermaria e recepção e comissões temáticas. Estas últimas, segundo anunciado na assembleia do sábado (7), já somam mais de 150. São agrupamentos que discutem temas específicos, propõem e analisam propostas que são feitas e realizam. Algumas das que identificamos: anti-publicidade, periferias, educação popular, direito, economia política, ecologia, França-África, Feminismo, Voto em Branco.

Está claro, portanto, que a luta contra a aprovação da Lei de Trabalho é apenas a pauta geradora da mobilização, que agora já se concentra sobre temas muito mais diversos (lembra o Brasil de 2013?). O futuro do movimento ainda é incerto e suas consequências para a vida política francesa e europeia também, mas o processo de rediscussão da democracia e de tentativa de construção de alternativas ao sistema político atual demonstra não apenas descontentamento, mas uma disposição a reinventar que pode ser bastante frutífera.
Em breve mais textos sobre outros aspectos deste complexo e interessante fenômeno.

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Jean-Luc Mélenchon lança novo site participativo de campanha

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Com vistas às eleições de 2017, Jean-Luc Mélenchon (JLM), pré-candidato à Presidência da França pelo Parti de Gauche (Partido da Esquerda) já lançou sua plataforma digital. Ele opotou por fazer um site na ferramenta NationBuilder, a mesma utilizada pelo americano Bernie Sanders.

Em meio a um clima político adverso, de grande insatisfação com o governo atual e de demandas da mais participação e transparência, a opção de JLM é por um modelo de campanha que valoriza muito a ação dos cidadãos. Não é a toa que o slogan estampado no site é “La France insoumise, le peuple souverain” (A França insubmissa, o povo soberano).

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Na capa o destaque é para a ferramenta que permite que as pessoas apoiem a candidatura fornecendo apenas seu e-mail e CEP para receber informações da campanha. Pelo contador do próprio site, são quase 45 mil apoiadores até o momento. “Minha proposta de candidatura é um chamado ao angajamento” diz o texto de apresentação e o projeto tem como primeiro ponto o “início da era do povo”.

O site também permite fazer doações e se cadastrar para ações específicas de campanha. O formulário permite que você monte um cardápio personalizado do que está disposto a fazer perto da sua casa e na internet.

 

Conivência com corrupção na América Latina é muito menor hoje, opina professor da Sorbonne

Georges Couffignal considera que o aumento dos escândalos é fruto de maior consciência política e da diminuição da tolerância com a corrupção

Por Nina Santos*

As últimas semanas em Paris tiveram a América Latina como pauta importante. Os resultados eleitorais recentes, os escândalos de corrupção, o papel dos meios de comunicação e as perspectivas incertas de futuro chamam a atenção dos analistas europeus. “É bom falar do tema da corrupção na América Latina, pois frequentemente dizemos muitas besteiras sobre isso”, afirma Georges Couffignal, professor emérito em ciências políticas da Universidade Sorbonne Nouvelle. Para ele, o que acontece na região é um aumento da consciência política e uma diminuição da tolerância moral com a corrupção. Ele lembra que durante anos houve certa conivência com as políticas clientelistas e com a lógica do “rouba mas faz” e o rompimento desse comportamento é o que explica vários escândalos de corrupção atuais.

Foto: Nina Santos

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O debate sobre a atulidade latino-americana esteve em pauta em função da visita do presidente cubano Raul Castro na segunda-feira (1), da apresentação do relatório anual do Observatório Político da América Latina da Sciences Po (Opalc) e de dois debates, um no Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris) e outro na Embaixada do Brasil.

A questão da imprensa aparece como central em muitos debates na França, onde as críticas aos meios locais não são pequenas, mas é impensável um sistema de comunicação com quase monopólio da iniciativa privada. “Os meios de comunicação na América Latina dificilmente podem ser considerados como um quarto poder em favor do cidadão”, afirma Jean-Jaques Kourliandsky, pesquisador do Iris ourliandsky.

Por outro lado, as recorrentes denúncias de corrupção aumentariam, na opinião de alguns analistas, a sensação de desconfiança dos eleitores em seus representantes, abrindo espaço para o reaparecimento da figura do outsider político: personalidades de outras esferas públicas que mergulham na disputa política com um apelo ético, discurso desideologizado e rechaço à classe política tradicional, caso observado na Guatemala, em 2015.

Resultados eleitorais: uma virada à direita?

Os últimos resultados eleitorais no continente, com destaque para Argentina e Venezuela, são especialmente interessantes por aqui. Para Olivier Dabène, coordenador do Opalc, embora não seja possível afirmar que haja uma virada à direita, essa tendência pode ser observada nas eleições de 2015 e indica um novo caminho da região. “Com toda a prudência que requer esse gênero de exercício, há espaço para prever uma derrota da esquerda no Peru em 2016, no Chile em 2017, no Brasil, na Costa Rica e na Venezuela em 2018, e, enfim, em El Salvador em 2019”, prevê Dabène.

Foto: Nina Santos

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Essa visão um tanto fatalista não é, no entanto, consenso. Couffignal, considera que falar de um ciclo de governos de direita que substituiria um ciclo de esquerda é reducionista. Ele lembra que enquanto a região vivia o dito ciclo de esquerda o México, segundo maior país da região, tinha um governo conservador, assim como a Colômbia. Para Couffignal, as diversidades internas da região não permitem esse tipo de generalização simplificadora. “Eu não concordo com meu colega Dabène sobre a projeção dele para as próximas eleições na América Latina”, deixa claro.

Mudanças dos últimos 15 anos transformaram a sociedade latino-americana. Para onde vamos agora?

A percepção de que as mudanças pelas quais a América Latina passou nos últimos 15 anos foram profundas e transformaram as sociedades tem bastante evidência. Ignacio Ramonet, diretor do Le Monde Diplomatique em espanhol, destaca que as 232 milhões de pessoas que sairam da pobreza na região estão agora exigindo uma maior qualidade dos serviços prestados pelo Estado. “As demandas da sociedade são diferentes, mas o discurso político é o mesmo”, opina. Ramonet destaca, no entanto, que o discurso conservador englobou os programas sociais e que a maioria das oposições hoje não propõe o fim das políticas implementadas. O que fazem é reivindicar a capacidade de aplicá-las de forma mais eficiente.

O questionamento sobre o rumo que estas mudanças estão tomando nos últimos anos parece ter múltiplas respostas. Para Kourliandsky, o Brasil vive hoje uma paralisia do Estado, que se vê incapaz de continuar as políticas sociais e manter a importância internacional do país. Já para Couffignal, está acabando a era dos ‘hiperpresidentes’ e començando uma geração de governos de coalizão – à exceção do Brasil, onde, para o pesquisador, o governo já era de coalizão -, o que muda substancialmente a forma de governar e traz diversos novos desafios.

Um ponto de acordo parece ser a estabilidade institucional da região. Os intelectuais são quase unânimes ao reconhecer a estabilidade da democracia latino-americana, mesmo face a alternâncias de poder. Não há especulações sobre a volta de ditaduras militares, como nas décadas de 60 e 70, mas sim discussões sobre os rumos que as democracias podem tomar.

Foto: Nina Santos

Foto: Nina Santos

Perspectivas futuras

Em um cenário econômico pouco favorável, com um sentimento de insatisfação política grande, fazer previsões sobre o futuro da região se torna uma tarefa mais complexa e arriscada.

Por um lado, a estabilidade institucional da região aponta para um futuro democrático. As lutas das últimas décadas para consolidar as democracias parecem ter resultados positivos na maioria dos países. No entanto, a vontade de renovação política – não apenas de atores, mas sobretudo de práticas – é latente e a crise econômica é uma realidade. Para Pablo Gentili, secretário-geral do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso), os avanços da região no último período não foram fruto simplesmente de um ciclo econômico positivo, mas sim de decisões políticas acertadas. Portanto, ele acredita que a tarefa atravessar esse novo período com sucesso – ou pelo menos com poucas perdas – é também da esfera política.

“Eu não acredito em volta atrás. Não há momentos de descanso. É preciso continar lutando. Por isso precisamos de utopias”, destaca Jean Paul Guevara Avila, embaixador da Bolívia em Paris. Ele acredita que a experiência latino-americana pode servir para mostrar aos europeus uma outra forma de viver. Já para Paulo Campos, embaixador do Brasil em Paris e anfitrião de um dos debates realizado em parceria com o Clacso, é importante apresentar a versão latino-americana sobre a nossa própria região. Para tanto, ele destaca a importância de que os intelectuais latino-americanos debatam a região e apresentem suas próprias visões do que se passa.

*Nina Santos, 28, é jornalista e doutoranda no Centro de Centro de Análise e Pesquisa Interdisciplinar sobre Mídia (CARISM) da Université Panthéon-Assas.

 

“Não precisamos mais ser um partido, um site faz quase tanto barulho quanto eles”

Le mouvement commun Voix de Gauche. Pour que la Gauche reste une espérance

Esta frase me chamou muita atenção na matéria da revista francesa Nouvel Obs sobre as novas iniciativas cidadãs para as eleições de 2017. O desencanto com os partidos políticos e seus representantes é palavra de ordem corrente por aqui. E a população está se organizando para recolocar os cidadãos no centro do debate político. São novos coletivos, que não se organizam como partidos e, por enquanto, não disputam eleições. O Mouvement Commun, o Voix de Gauche e o Ma Voix, são exemplos disso.

Achei muito interessante que uma das iniciativas cidadãs aqui é tentar promover prévias por conta própria (La Primaire e Primaire de Gauche). Insatisfeitos com a falta de debate sobre quem serão os candidatos, os cidadãos tentam angariar dinheiro através de crowdfounding e reunir uma parcela significativa da população em uma plataforma que permitiria que eles mesmos fizessem essa primária. Essa tentativa abre diferentes frentes de discussão, mas me salta aos olhos o tipo de relação que se estabelece com os partidos políticos.

La Primaire Ouverte pour les élections de 2017   LaPrimaire.org

Apesar do discurso ser de que “já não precisamos mais deles”, a tentativa de fazer prévias mostra o respeito que há pela importância dos partidos e da decisão coletiva. Trata-se mais de um discurso de renvovação de práticas partidárias do que de uma adesão ao individualismo e à negação da coletividade, que à primeira vista esses movimentos podem trazer.

Escola de verão em Paris sobre comunicação, política e tecnologia

Em 2015, eu frequentei a primeira edição da Summer School do UPEC (Université Paris-Est Créteil). Eles ofereceram 4 tipos de cursos de 2 semanas, entre eles o IMPACT (International Media, Political Action and Communication Technologies). Foi uma experiência muito legal para retomar minha vida acadêmica (já que eu estava afastada fazia 2 anos), conhecer novas pesquisas, pessoas de várias partes do mundo e, sobretudo, a forma acadêmica de pensar francesa. Eu acho muito interessante e muito diferente a forma como eles organizam as terorias e o tipo de análise que deriva disso.

O UPEC conta com alguns nomes importantes da área de comunicação digital e política. Os dois coordenadores do curso são Stéphanie Wojcik, que coordena a rede de democracia eletrônica, e Benjamin Ferron, que estudou o movimento alteromundista no México durante seu doutorado e tem interessantes textos publicados, como este aqui.

Eles estão anunciando a edição 2016 do curso. Quem se interessar pode ir diretamente na página da universidade e mandar seu pedido de inscrição.

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Na França, apenas 11% acreditam que os políticos levam em conta a opinião do povo

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Segundo a recém divulgada pesquisa do laboratório Cevipov da SciencesPo “O barômetro da confiança política”, versão 2016, apenas 11% dos franceses acredita que os responsáveis políticos se importam com o que a população em geral pensa. Entre estas pessoas, apenas 1% considera que eles se preocupam muito com a opinião do povo e outros 10% acreditam que eles se preocupam consideravelmente.

Vague 7 janvier 2016 Résultats par vague Le Baromètre de la confiance politique CEVIPOFEste é apenas um dado desta pesquisa, realizada desde 2009, que mede o grau de confiança das pessoas em diversas instituições e também personalidades políticas do país. Outro dado interessante é a opinião dos franceses sobre o funcionamento da democracia francesa. Hoje, 31% da população acredita que ela funciona bem (2% muito bem e 29% consideravelmente bem). Esse número era de 50% em 2009.

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A taxa de confiança nos meios de comunicação e nos partidos políticos se mantêm praticamente sem variações entre 2009 e 2015, estável em 24% no caso dos media e caindo de 14% para 12% no caso dos partidos – ainda que, neste caso, a queda estivesse mais acentuada até 2014 e os atentados de 2015 tenham ajudado a fazer uma pequena reversão. Já os sindicatos tiveram uma perda importante na sua avaliação, passando de 36% de confiança em 2009 para 27% em 2015.

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Há muitos outros dados que podem ser explorados no relatório completo, que está disponível online.

O orçamento participativo parisiense para 2016

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Começa amanhã o processo do orçamento participativo de Paris 2016. A iniciativa consiste de 4 etapas: proposição de projetos, ateliês de co-construção, consulta ao projeto e votação. E tudo isso dura 9 meses, ou seja, teremos o resultado final em setembro.

O orçamento participativo tem orçamento para todo seu período de aplicação, que é até 2020. No total são 500 milhões de euros. Esse valor equivale a 5% do orçamento de investimento total da cidade no período. Os critérios para propor um projeto são de que você more em Paris (ainda que não seja francês e sem exigência de idade) e que a sua proposta seja de um investimento e não de manutenção. As propostas podem ser feitas para o seu bairro ou para a cidade como um todo. E os orçamentos são separados: um para a cidade e um para cada bairro, de acordo com decisões da Prefeitura de quais são os bairros prioritários.

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As propostas são cadastradas online, discutidas em ateliês presenciais organizados por bairro. Depois a Prefeitura seleciona aqueles que serão submetidos ao voto da população, de acordo com 3 critérios: o interesse geral, as competências da Prefeitura de Paris e o tipo de uso do orçamento (se se trata realmente de investimento e não de funcionamento/manutenção).

Pelo que entendi, a iniciativa existe desde 2014 e está atingindo bons resultados. Para os interessantes há muitos números e relatórios de resultados online.

Movimento Beppe Grillo: experiência italiana de ativismo digital que chegou ao poder institucional

Hoje, no II Congresso Internacional sobre Net-Ativismo, o pesquisador Stefano Bory, da universidade Federico II di Napoli, falou sobre a experiência italiana do Movimento Beppe Grillo. O personagem que dá nome ao caso é um conhecido humorista político italiano que sofreu retaliações por fazer críticas à política italiana.

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O movimento, que hoje tem 10 anos e conquistou 25% dos votos na última eleição (2013), começou com a criação da rede “Os amigos de Beppe Grillo”. Tratava-se de uma plataforma social, em que as pessoas se cadastram e identificam onde estão no território italiano. Essa relação com o território fez com que grupos regionais se mobilizassem e realizassem atividades e debates presenciais.

Bory relata que o marco do movimento ficou conhecido como “V Day” e aconteceu em 2008, na cidade de Bolonha. A grande participação no evento contou com cidadãos muito heterogêneos e enviou uma forte mensagem de insatisfação política. A partir desta demonstração de força, Grillo lança um referendo popular propondo mudanças no sistema político (como o limite de dois mandatos por pessoa). Ele consegue muito mais do que as 50 mil assinaturas que são exigidas pelo parlamento italiano nestes casos, entrega o projeto com as assinaturas, mas o governo nunca colocou a questão em pauta.

O movimento, que recusa a ideia de “democracia participativa” e defende a “cidadania ativa”, cria então um não-estatuto. Este documento afirma que o movimento tem como sede o blog de Beppe Grillo, ou seja uma plataforma digital. O movimento não se declara um partido político e recusa a participação a pessoas que já tenham experiência em política institucional. O compromisso assumido no documento é o de fazer uma política através das redes, dando à totalidade de usuários o poder da governança.

Em 2011 eles conseguem eleger o primeiro conselheiro municipal e se comportam como o “olho da cidadania” nos espaços políticos de tomada de decisão. Passam a disponibilizar publicamente informações antes restritas a ambientes políticos fechados. Eles não assumem o papel de representantes, mas sim de parte de uma rede. A cada tomada de decisão, eles voltam para a web para consultar as pessoas. Isso logo começa a ser um problema, pois é impossível de consultar a todo momento. Cria-se uma nova plataforma participativa para as eleições 2013 e o movimento obtém 25,5% dos assentos legislativos.

Para Bory, trata-se do exemplo mais concreto que temos hoje de um movimento que surgiu nas redes digitais e conseguiu ter amplo acesso aos espaços da política institucional. Ele alerta, no entanto, para as contradições que emergem deste processo. Primeiro a questão da figura do Beppe Grillo, que dá nome ao movimento e é dono do site onde ele está “sediado”, o que é uma contradição com o espírito horizontal e coletivo do movimento. Além disso, a promessa da participação de toda a rede em cada decisão se mostra impossível na prática, o que começa a gerar insatisfação nos membros. O movimento agora tenta desenvolver uma nova plataforma para facilitar esse compartilhamento das decisões.

Trata-se de um interessantíssimo caso de estudo, sobretudo porque outros países têm experiências parecidas, mas que podem tomar rumos diversos. Agora que exemplos concretos de movimentos desse tipo já podem ser analisados, talvez seja a hora de pensar nas consequências que isso tem para a democracia. Agora que o sonho da internet que facilita e amplia a participação parece estar se concretizando em alguns casos, temos uma democracia melhor?