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“Não precisamos mais ser um partido, um site faz quase tanto barulho quanto eles”

Le mouvement commun Voix de Gauche. Pour que la Gauche reste une espérance

Esta frase me chamou muita atenção na matéria da revista francesa Nouvel Obs sobre as novas iniciativas cidadãs para as eleições de 2017. O desencanto com os partidos políticos e seus representantes é palavra de ordem corrente por aqui. E a população está se organizando para recolocar os cidadãos no centro do debate político. São novos coletivos, que não se organizam como partidos e, por enquanto, não disputam eleições. O Mouvement Commun, o Voix de Gauche e o Ma Voix, são exemplos disso.

Achei muito interessante que uma das iniciativas cidadãs aqui é tentar promover prévias por conta própria (La Primaire e Primaire de Gauche). Insatisfeitos com a falta de debate sobre quem serão os candidatos, os cidadãos tentam angariar dinheiro através de crowdfounding e reunir uma parcela significativa da população em uma plataforma que permitiria que eles mesmos fizessem essa primária. Essa tentativa abre diferentes frentes de discussão, mas me salta aos olhos o tipo de relação que se estabelece com os partidos políticos.

La Primaire Ouverte pour les élections de 2017   LaPrimaire.org

Apesar do discurso ser de que “já não precisamos mais deles”, a tentativa de fazer prévias mostra o respeito que há pela importância dos partidos e da decisão coletiva. Trata-se mais de um discurso de renvovação de práticas partidárias do que de uma adesão ao individualismo e à negação da coletividade, que à primeira vista esses movimentos podem trazer.

Na França, apenas 11% acreditam que os políticos levam em conta a opinião do povo

Vague 7 janvier 2016 Résultats par vague Le Baromètre de la confiance politique CEVIPOF4

Segundo a recém divulgada pesquisa do laboratório Cevipov da SciencesPo “O barômetro da confiança política”, versão 2016, apenas 11% dos franceses acredita que os responsáveis políticos se importam com o que a população em geral pensa. Entre estas pessoas, apenas 1% considera que eles se preocupam muito com a opinião do povo e outros 10% acreditam que eles se preocupam consideravelmente.

Vague 7 janvier 2016 Résultats par vague Le Baromètre de la confiance politique CEVIPOFEste é apenas um dado desta pesquisa, realizada desde 2009, que mede o grau de confiança das pessoas em diversas instituições e também personalidades políticas do país. Outro dado interessante é a opinião dos franceses sobre o funcionamento da democracia francesa. Hoje, 31% da população acredita que ela funciona bem (2% muito bem e 29% consideravelmente bem). Esse número era de 50% em 2009.

Vague 7 janvier 2016 Résultats par vague Le Baromètre de la confiance politique CEVIPOF1

A taxa de confiança nos meios de comunicação e nos partidos políticos se mantêm praticamente sem variações entre 2009 e 2015, estável em 24% no caso dos media e caindo de 14% para 12% no caso dos partidos – ainda que, neste caso, a queda estivesse mais acentuada até 2014 e os atentados de 2015 tenham ajudado a fazer uma pequena reversão. Já os sindicatos tiveram uma perda importante na sua avaliação, passando de 36% de confiança em 2009 para 27% em 2015.

Vague 7 janvier 2016 Résultats par vague Le Baromètre de la confiance politique CEVIPOF2

Há muitos outros dados que podem ser explorados no relatório completo, que está disponível online.

Como está a liberdade no mundo?

O Democracy Web: Comparative Studies in Freedom é um interessante estudo sobre índices de liberdade em diversos países do mundo. Para avaliar a liberdade, eles consideram dois critérios: direitos políticos e liberdades civis. Posteriormente ele  classificam a liberdade de uma nação entre 1 (muito livre) e 7 (pouco livre) o que gera 3 categorias gerais de países: livres, parcialmente livres e não livres. Os resultados da pesquisa podem ser visualizados em um mapa bastante interessante, que permite ter uma visão mais global da situação. Além disso, ao clicar em cada país é possível ver informações demográficas e links para outros relatórios, como os de liberdade de imprensa.

Ao ver o título do projeto, me ocorreu uma ressalva: não dá pra analisar democracia só a partir de liberdades. Mas pesquisando no site deu para perceber que o projeto Democracy Web parece ser algo mais amplo.

Agendamento e Sites de Redes Sociais

Minha apresentação de ontem, no Conlab – Congresso Luso Afro Brasileiro de Ciências Sociais. Mais sobre o congresso e o artigo completo podem ser visto aquis.

Pensando a democracia

Tenho cada vez mais me dado conta da importância de pensar a sociedade de uma forma geral para entender fenômenos específicos. É claro que todos temos nossas áreas de interesse e nossos objetos de estudo, mas eles fazem parte de uma realidade social, econômica, histórica que precisa ser levada em conta. E pode ter certeza, seja lá o que for que você estude, alguém já escreveu algo que pode lhe servir.

Portanto, minhas dicas hoje vão no sentindo de entender de forma mais ampla o que é a democracia, por quais transformações ela passou e para onde ela estaria indo. Acredito que dois livros são interessantes nessa compreensão – apesar de existirem muitos outros que tratem do tema. O primeiro seria “Mudança Estrutural da Esfera Pública”, de Jürgen Habermas, onde ele analisa as mudanças sociais e sua influência no funcionamento da Esfera Pública enquanto âmbito central para o desenvolvimento da democracia. O segundo seria “O Futuro da Democracia”, de Norberto Bobbio, que procura fazer uma análise entre o ideal democrático e sua concretização, identificando algumas “promessas não cumpridas” da democracia.

Ambos os livros são de leitura razoavelmente fácil. O Futuro da Democracia está disponível online em português, já o livro de Habermas, consegui achar apenas em inglês (é preciso estar logado para baixar).

IADIS Multiconference on Computer Science and Information Systems

A IADIS Multiconference on Computer Science and Information Systems está com chamada de trabalhos aberta para sua edição de 2011. Este ano o tema é “cultivating online communities for grassroots democracy, equity and social justice”, então pode ser realmente uma boa chance para os pesquisadores na área de comunicação e política. O prazo final para envio dos trabalhos é 29 de abril e a Conferência acontece em Roma, entre os dias 20 e 26 de maio.

cultivating
online communities for grassroots democracy, equity and social justice

Que democracia?

Fiquei sabendo que hoje é dia da democracia. Não dou muito valor a essas coisas de “dia de algo”, mas achei uma boa oportunidade de compartilhar com vocês um pequeno trecho do meu Trabalho de Conclusão de Curso que fala justamente sobre questões iniciais de conceitos e tipos de democracia.

Antes de tudo, convém partir de algumas definições de democracia. O conceito grego considera que a democracia é o regime em que o governo é exercido pelo demos (por todos, pelo povo). Já para os romanos, a democracia seria um governo em que o Estado é uma res publica, ou seja, o Estado é de todos, em oposição à coisa privada.Partindo desses pressupostos, há inúmeras definições de democracia.

Duas coisas são necessárias para que existam Estados democráticos: instituições que adotem os requisitos democráticos e uma cultura política predisposta à democracia. Contudo, entre a democracia, enquanto princípios e requisitos, e a sua materialização em instituições e cultura política, é preciso analisar os modelos de democracia adotados. Ou seja, os princípios democráticos podem se materializar em diferentes modelos de Estado, enfocando diferentes características democráticas.

Hoje, o modelo democrático padrão no mundo é o representativo. Como mostra Gomes, no entanto, esse modelo apresenta problemas.

“O problema é bem conhecido: a democracia liberal constitui-se numa premissa fundamental, a saber, a idéia de soberania popular. Da premissa, passa-se à promessa: a opinião do povo deve prevalecer na condução dos negócios de concernência comum, as decisões que afetam a coisa pública. A consolidação da experiência democrática, entretanto, principalmente através dos modelos de democracia representativa, findou por configurar uma esfera da decisão política apartada da sociedade ou esfera civil, formada por agentes em dedicação profissional e integrantes de corporações de controle e distribuição do capital circulante nesta esfera – os partidos.” (2005, p.3)

Ainda segundo o autor, três modelos de democracia representativa são hoje considerados: o modelo liberal-individualista, que é importante para a ideologia-internet na forma do ciberlibertarianismo; o modelo comunitarista, que disputava com o modelo liberal clássico o predomínio no ambiente anglossaxão; o modelo deliberacionista, de origem habermasiana, que se tornou predominante na década de 90 em ambientes de língua inglesa. (op. cit., p.4)

Trabalharemos aqui com o conceito de democracia deliberativa por acreditar que ele é o que melhor articula a questão da comunicação e da participação pública com o processo de decisão política. Segundo Maeve Cooke, “em termos simples, a democracia deliberativa refere-se a uma concepção de governo democrático que assegura um lugar central para a discussão racional da vida política” (2009, p.143). Enquanto outros modelos democráticos focam no direito a liberdades ou à participação, o modelo de democracia deliberativa coloca a discussão pública dos assuntos públicos como eixo central da construção democrática.

O modelo de democracia deliberativa, contudo, vai além, dando a essa discussão racional da vida política o poder de legitimar a própria esfera política. Nessa perspectiva, caracterizamos a democracia não a partir de quem exerce o poder, mas a partir da forma de legitimação da decisão política. Assim, a democracia deliberativa seria aquela “que coloca a decisão pública generalizada como centro gerador de legitimidade da decisão política” (GOMES, 2008, p.106).

COOKE, Maeve. Cinco argumentos a favor da democracia deliberativa. In:MARQUES, Ângela Cristina Salgueiro (org.). A deliberação pública e suas dimensões sociais, políticas e comunicativas. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009, p.143-174.

GOMES, Wilson. Comunicação e democracia de massa: problemas e perspectivas.PDF. 2005.

GOMES, Wilson; MAIA, Rousiley C. M. Comunicação e Democracia. São Paulo:Paulus, 2008. Coleção Comunicação.

Projeto pretende mapear controvérsias

O MACOSPOL – Mapping Controversies on Science for Politics é um projeto liderado pelo pesquisador Bruno Latour e que conta com a colaboração de oito grupos de trabalhos em diversos países do mundo. Partindo do slogan “Democracy is the possibility to disagree”, o projeto busca desenvolver uma plataforma para mapear e interpretar controvérsias. O site do MACOSPOL é bastante rico em informações sobre o trabalho de cada grupo envolvido, os casos de estudo escolhidos, ferramentas desenvolvidas, tipos de usuários entre uma série de outra questões.